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A culpa de ter culpa

sa├║de mental

Todos nós já vimos a típica publicidade de mulheres e homens super-heróis. Conseguem acordar cedo, fazer exercício, tomar um pequeno-almoço saudável com ovos, fruta fresca e pão feito em casa sem glúten, levar os filhos à escola, ir para o trabalho e ser produtivo durante as oito horas obrigatórias, voltar para casa, fazer jantar e ainda ter tempo para os filhos e companheiro, para no dia seguinte repetirem a mesma rotina perfeita. Quer sorte, mas nem todos assim, e ainda bem, somos humanos!

Basta sairmos de casa, ligarmos o rádio ou a televisão para sermos bombardeados com anúncios que nos apelam a ser diferentes do que realmente somos.  A verdade é que estes estímulos levam a que nos sintamos insuficientes, que tentemos alcançar um padrão inalcançável, que se traduz em insatisfação, frustração, e falta de confiança nas nossas vidas. 

“Realmente, eu poderia trabalhar mais, eu poderia dar mais atenção aos meus filhos, eu poderia emagrecer aqueles 5 quilos a mais. Hoje em dia, com a enorme quantidade de informações às quais temos acesso, é natural sentir culpa por comer o chocolate de que tanto gosta, por tirar um dia de folga ou por não ter tempo para dar a atenção que desejava a alguém….”, entramos na ditadura do “devo/tenho que, devia, se eu quisesse eu podia. O que nos leva a pensar: “quero realmente” e caímos no poço do perfeccionismo, no qual defeitos não são aceitáveis e erros são imperdoáveis. Parece não haver meio termo: ou se é perfeito e faz-se tudo bem, ou não se é nada. Feliz ou infelizmente, a busca pela perfeição é irrealista e só nos traz frustração e sentimentos de fracasso. Erros fazem parte da vida; são os erros que nos ajudam a crescer e a aprender a ser e fazer cada vez melhor. Se não erramos, é porque não experimentamos, porque não arriscamos e vivemos.. 

Uma das consequências certas do perfeccionismo é a culpa: culpa por não ter tempo para tudo, culpa por não ser boa mãe, culpa por não conseguir ser melhor, culpa por não conseguir corresponder a todas as expectativas que depositam em nós. Enfim, culpa por sentir culpa. Este sentimento surge quando valorizamos muito as nossas falhas, erros e imperfeições em vez de apreciar todos os aspetos bons que temos e de que nos devemos orgulhar.  É só trocar o ponto de foco, do negativo para o positivo.

É o autojulgamento que leva à culpa. Este é um sentimento de remorso que experienciamos por algo que fizemos ou sobre o qual nos sentimos responsáveis. Isto pode tirar-nos o sono e uma boa parte da nossa autoestima por não nos sentirmos suficientes. 

Por exemplo, se tem filhos deve rever-se na situação de alternar todo o tempo sentimentos contraditórios, como o amor incondicional e uma culpa atroz por achar que não faz o suficiente por eles.  Muitas vezes, em consulta, chegam-me pacientes, (habitualmente mães) que falam da culpa que sentem de não ter tempo para os filhos, não ter paciência ou de, por vezes, não apetecer “celebrar” o amor, ou culpa de gritarem muito, de estar sempre cansadas. Vamos parar e pensar: se dedicarmos algum tempo do nosso dia- nem que sejam 10 minutos- a nós mesmos e a fazer alguma coisa de que realmente gostamos, não teremos mais disponibilidade para os outros que nos rodeiam?

 Faça uma pausa e faça uma lista de pelo menos três coisas de que gosta de fazer. Já as anotou? Agora pense numa altura do dia em que tenha mais disponibilidade e probabilidade de as conseguir fazer, um momento só seu durante o dia. Não é difícil, é uma questão de gerir o seu tempo, organizar-se e falar com as pessoas com quem mais convive sobre a necessidade de reservar uns minutinhos consigo mesma. Isto não é um ato de egoísmo, mas sim de amor-próprio.

Nos tempos atuais, a maioria de nós é muito atarefada, envolvida em atividades profissionais, sociais, estudos, tarefas do lar, e claro, com os cuidados com os nossos pequenos. Devido a isto, muitas mulheres sentem-se culpadas por não poderem participar tanto na vida dos filhos quanto gostariam. Na nossa sociedade instituiu-se o seguinte: o pai sai para trabalhar e a mãe fica com as crianças. Esta premissa já sofreu grandes mudanças mas ainda hoje são as mulheres que se sentem responsáveis pelos cuidados com os filhos. É um resquício de passado que infelizmente ainda se mantém nos dias de hoje. 

Ao invés de se afundar em culpa, deve refletir sobre alguns aspetos envolvidos neste sentimento:

  • Diferencie o que você gostaria de dar aos seus filhos em termos de dedicação de tempo e carinho, do que eles realmente precisam. 
  • Lembre-se de que períodos de separação- quando não exagerados- são saudáveis e contribuem  para a relação. 
  • Não se esqueça de que crianças têm alto poder de adaptação. 
  • Saiba que mesmo filhos que passam muito tempo com as mães pedem para ficar ainda mais tempo com elas.
  • Quando estiver com os seus pequenos, esteja presente no momento, saboreie e aproveite cada momento.

É humanamente impossível dar conta de tantas cobranças, expectativas e responsabilidades que colocam sobre nós, tornando-nos culpados e devedores de dívidas impagáveis que nem sempre fomos nós que criamos. Essas cobranças surgem da sociedade. 

Outra das grandes fontes de culpa que observo nas minhas pacientes é o ócio, o momento só delas. Ainda hoje temos dificuldade em usar os momentos ociosos e decidir o que fazer com eles. Tempo livre virou sinónimo de tempo que ainda não foi preenchido por alguma atividade produtiva. O trabalho tornou-se ubíquo com a ajuda do smartphone, e o período de lazer tornou-se, como alguns chamam, “a terceira jornada” em que corremos atrás do entretenimento como se fosse uma tarefa obrigatória, um momento a ser vivido ao máximo, de buscar intensas experiências.  Mas e o descanso? E o prazer?

O ócio, o prazer de fazer absolutamente nada, foi totalmente engolido pela rotina agitada do dia-a-dia. Ter pavor de férias e considerar-se inútil ao “estar à toa” são sentimentos cada vez mais comuns.  Quanto mais desenvolvemos táticas de fuga para não ficarmos sozinhos com os pensamentos, mais surgem movimentos, estudos e especialistas que reforçam a importância do tempo livre para fazer o que se gosta e o que se quer, e o mais importante: sem culpa e sem qualquer objetivo. O grande problema é ocupar-se compulsivamente. 

O ócio, no seu sentido mais puro, é o luxo de poucos.: “Tem de se impor, delimitar os horários e dizer, este é o meu momento comigo mesmo.” A maioria das pessoas se atém aos mesmos programas de sempre: churrasco, tv, internet. Durante o tempo livre, as atividades são buscadas por uma característica cultural, comodidade, modismo ou para agradar amigos e família e não para o próprio bem. Porém, a grande sacada é encontrar alguma atividade que agregue aprendizado intrinsecamente. São momentos que exigem exatamente a energia e habilidade que a pessoa está disposta a desprender. Isso proporciona uma calibragem, o equilíbrio do próprio ser.

Ouvimos muito em consultório as expressões: “o tempo é curto” os dias estão a passar muito rápido, “não tenho tempo”. Talvez você mesmo já tenha usado estas expressões quando não conseguiu finalizar alguma tarefa ou quando ficou sobrecarregado no trabalho. Mas compreenda que o tempo não mudou, ele ainda é o mesmo para todos nós. A sensação de que o tempo está acelerado, na verdade, é a percepção que temos em determinado momento, conforme o nosso estado mental. O que tem aumentado são os compromissos, os desafios, a concorrência entre as empresas, a quantidade de informações e de responsabilidade no trabalho e na vida. O que acelera é o ritmo da vida. 

O tempo é neutro, são 86.400 segundos, 1.440 minutos e 24horas por dia para todos nós. Então as lamentações de falta de tempo e a culpa  não nos vão ajudar a lidar com as pressões do quotidiano. Basta! É preciso aprender a gerir-se a si mesmo, a controlar a ansiedade, saber dizer não às coisas que não são importantes em determinados momentos, abandonar a procrastinação e trocar a pressa por competência, pois a pressa é sinónimo de despreparo e desorganização. Também é necessário aprender a administrar melhor as tarefas, aprender a organizar-se e a planear melhor.  Ninguém tem o poder de mudar o tempo, a maneira como nos organizamos é que determina o nosso êxito. Por outro lado, é essencial aprender a trabalhar em equipa. Quando sabemos trabalhar em equipa somos mais produtivos. As pressões do dia-a-dia são superadas com mais facilidade quando existe um grupo de pessoas conscientes da importância da união, do foco comum e da boa comunicação entre elas para otimizar os resultados. Não queira abraçar o mundo. Divida as tarefas maiores em pequenas etapas. Delegue quando for necessário. Temos que nos lembrar que o sucesso não se alcança sozinho. Não confunda emergência (imediatamente) com urgência (é inadiável- não se pode adiar durante algum tempo). Se está cheio de tarefas urgentes, faça um mapeamento para identificar as causas dessas urgências. Na maioria das vezes as tarefas são urgentes porque eram importantes, mas, por falta de organização, planeamento, ou comunicação, tornam-se urgentes. Por isto, planeie as tarefas importantes, definindo um prazo de execução. Tenha foco e termine o que começou. Observe os seus hábitos, você pode estar permitindo alguns desperdiçadores de tempo que tiram o foco.  Saiba trabalhar com antecipação. Isso não significa atrair problemas, ou viver focado demasiadamente no futuro, mas é visualizar as soluções com intuito de se preparar para dar a melhor resposta diante dos desafios que surgirão. 

A culpa é omnipresente, todos nós carregamos um pouco desse mal nas nossas vidas. Porém, sentir-se culpado não resolve problemas, pelo contrário, o sentimento de culpa pode causar-nos diversas dificuldades como: autopunição, submissão, estagnação, depressão e dificuldade em sentir prazer. 

 

Dicas “Livre-se da culpa”:

  1. Aceite as suas imperfeições; 
  2. Desenvolva a auto responsabilidade. Cuide-se, aceite-se e ame-se e assuma a responsabilidade dos seus atos.
  3. Não viva da aprovação alheia. 
  4. Viva no presente! A culpa é um sentimento que vem do passado. Mude as suas atitudes do presente e crie um novo futuro para si. 
  5. Saiba que há coisas que estão fora do seu controlo, não tem de sentir culpa por isso. 
  6. Escreva sentimentos num diário (e.g.: estou a sentir-me sobrecarregado pela culpa e tristeza. Não consigo parar de pensar nisso. A tensão está a causar-me dores de cabeça e mal estar”)
  7. Esclareça exatamente o motivo pelo qual se sente culpado e aceite-o
  8. Reflita sobre a possibilidade de modificar a forma como age
  9. Escreva frases que expressem a culpa e transforme-as em declarações de gratidão. As declarações de culpa começam frequentemente com “eu devia…”. Transforme estas declarações em frases que enfatizem a gratidão (ex.: transforme “eu deveria ter sido menos critica com o meu marido quando estávamos juntos” em “eu aprendi que não devo ser tão critica em minhas futuras relações”
  10. Faça afirmações diárias, declarações positivas e encorajadoras. Este método pode ajudá-lo a melhorar a autoestima e amor próprio (ex.:“sou uma boa pessoa, e mereço o perdão pelas minhas ações no passado”). Estas declarações podem ajudá-lo a dar um novo significado às suas ações e experiências.
  11. A culpa pode ser uma importante ferramenta de aprendizado para o futuro. Retirar uma lição do ocorrido pode torna-lo mais sábio. 
  12. A culpa pode tornar uma pessoa mais empática, quando ela reconhece danos das suas ações, percebendo como elas afetam os outros.
  13. É impossível mudar o passado, mas você pode escolher a maneira pela qual o passado afeta o presente e futuro. 

Ruminar sentimentos negativos de culpa pode levar a níveis prejudiciais de autodepreciarão.

 

Desafio diário:

Desafio: olhe-se ao espelho uma vez por dia e faça um elogio.

Desafio: crie uma lista de todas as coisas que já realizou na vida e celebre-as.

Desafio: finja por alguns instantes que perdeu a memoria e faça as seguintes perguntas: onde estou? O que está a acontecer neste exato momento? Como me sinto?

  Não é impossível fazer as pazes consigo mesmo, parar de se sentir culpado em vão. Temos que começar a sentirmo-nos como alguém único, autêntico e cheio de coisas boas. Quais são as suas? Você é única e não se importe com a rejeição, porque a sua autenticidade atrai as pessoas que a merecem e os outros não interessa! Fazer as pazes é possível, mas demora tempo. É difícil mudar padrões que duram há tanto tempo e é preciso paciência e um esforço ativo para os conseguir alterar. Não desista de si! Fazer as pazes conosco próprios não tem só a ver com o superficial mas com todas as crenças que nos foram incutidas ao longo da vida. Quais são as suas crenças acerca de si? Deite fora as crenças falsas acerca de si (de que não é merecedor de felicidade e paz). É hora de nos livrarmos desse grande peso, parar de nos culparmos e querermos ser iguais aos outros.  Até porque, será que os outros são perfeitos? Será que o que os outros aparentam é a realidade?

A culpa não nos pertence, por isso podemos abandoná-la a qualquer momento! Liberte-se das suas culpas, e substitua agradecimentos. A culpa nunca fará de si o ator principal, pois rouba sua a autoestima, coragem, alegria de viver e, o pior, transformá-la-á numa vitima cheia de amargura, insegurança e lamentação. 

Percorrer este caminho sozinha é mais duro! Sente que os sentimentos de culpa são avassaladores? Teremos o maior prazer em ouvi-la e ajudar a ultrapassar momentos mais difíceis. Pode contar conosco e tire as suas dúvidas, porque incertezas não traem resultados.

Dúvidas não traem resultados,

Bárbara Ramos Dias